Mulher de 30 e tantos é traída pelo marido empresário sempre ocupado. A filha é lésbica e os pais convivem com toda a naturalidade. Mulher que aparentemente vive bem, sozinha, se mostra infeliz em sua independência emocional. Uma professora com cabelo chanel e um marido insensível, se apaixona pelo belo e jovem aluno. Homem que no início mostra desinteresse pela leitura de romances surpreende a todos pela sua sensibilidade. Mulher com muitos casamentos no currículo se mostra muito mais centrada do que as outras.
Cansado de tantos clichês? Tem isso e muito mais em O Clube de Leitura Jane Austen (2008). Porém, o genial do filme não está em si mesmo (como em toda obra de arte). É comum ver em discussões cinematográficas, musicais, literárias ou teatrais o tom da conversa partir para a terceira pessoa. Quando a discussão é acadêmica, aí que o borrão tá feito! Analisam-se efeitos de sentido, estruturas poemáticas, construções linguísticas, imagens e verbos. Mas não se engane! Você pode aprender tudo isso, claro! É só decorar teorias e nomes e... voilà! Eis um analista da arte!
Homem passa mais de 10 anos estudando os principais expoentes da arte européia, mas não deixa de trair sua esposa nem por um fim de semana. Mulher ministra seminários sobre o olhar do amor das diferentes épocas históricas, mas ainda não aceita a opção sexual do filho. Professor é doutor em pedagogia escolar e não consegue sorrir para o seu aluno.
Mas como? Arte nos eleva e edifica. Em certa altura, Marcelo Camelo disse que a função primeira da arte é entreter. Sim, entretenimento. Mas a arte desafia quem a desafia. Se meta com ela e verá a fúria débil e fantástica de uma das coisas mais coisa do mundo. As personagens de O Clube querem falar isso ao seu ouvido. Mostram a cada cena que a literatura vive em cada ser humano, seja literato, letrado ou o escambau. Porém, a quantidade de romances que você tem na prateleira ou leu na vida, não demonstram a ascensão do teu espírito, muito menos a tua sensibilidade humana.
É preciso encontrar o mundo e não o seu mundo. A literatura nos serve de opções, de interpretações possíveis, mas isso nem é o fundamental. A literatura ensina, em suma, que se deve viver. Logo, o mais importante não é a literatura, e sim a vida.
Em O Clube, cada personagem acha em Jane Austen um relato de sua vida e de certo modo, um álibi para os seus atos. Certo? Errado? Pouco importa. As personagens não analisam a estrutura semântica, a cadeia prosódica, os traços estilísticos nem a heterogeneidade do narrador; olham para o livro e encontram o sofrimento e o prazer de uma autora que quis escrever para ser sentida.
O Clube prova que a literatura quer desesperadamente ser vivida, e não deixada numa tese de pós-graduação, muito menos proferida em vão por indivíduos mal intencionados (leia-se letrados, ou cabeças-pensantes). Me lembro do Fernando Antineli dizendo que errado é aquele que fala correto e não vive o que diz.
Não falo da minha literatura, da sua literatura, muito menos da nossa literatura. Falo da literatura.

não sei o que vc toma pra escrever tão bem desse jeito, mas quero dois, garçom
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